Qualidade e quantidade dos óvulos: guia completo sobre
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01 Jul 2026
Compreenda a diferença
Quando começa a explorar os tratamentos de fertilidade, pode parecer que precisa de aprender uma nova linguagem. Existem muitos termos e siglas para compreender e, rapidamente, tudo pode parecer avassalador. Uma das áreas que gera mais dúvidas é a diferença entre qualidade e quantidade dos óvulos.
Para ajudar a esclarecer este tema, falámos com a Dra. Joana Mesquita Guimarães, Diretora Clínica da Procriar.
Neste guia, explicamos:
● a diferença entre qualidade e quantidade dos óvulos
● o que significa reserva ovárica
● como a idade afeta a fertilidade
● o que os testes de AMH e as ecografias podem revelar
● o que pode fazer para apoiar a sua saúde reprodutiva
Para compreender a qualidade e a quantidade dos óvulos, é útil começar pela reserva ovárica.
A reserva ovárica corresponde ao número de óvulos que permanecem nos ovários num determinado momento da vida. O organismo não produz novos óvulos, por isso, nasce com todos os que terá ao longo da vida.
O que surpreende muitas pessoas é que este processo começa antes do nascimento. Ainda durante o desenvolvimento no útero materno, um feto feminino já possui todos os óvulos que terá ao longo da vida. Quando nasce, esse número já diminuiu significativamente. Na puberdade, é ainda mais reduzido. A partir daí, continua a diminuir com a idade.
Como explica a Dra. Joana Mesquita Guimarães:
A reserva ovárica permite perceber se ainda existem muitos óvulos disponíveis, mas não revela qual é a sua qualidade.
Como os óvulos se desenvolvem em cada ciclo menstrual
Cada óvulo desenvolve-se no interior de uma pequena estrutura cheia de líquido chamada folículo. Em cada ciclo menstrual, os ovários recrutam um grupo destes folículos. Normalmente, um deles torna-se dominante e liberta um óvulo durante a ovulação. Os restantes folículos, juntamente com os óvulos imaturos que contêm, deixam de se desenvolver e são reabsorvidos pelo organismo.
À medida que o número de óvulos diminui, também tende a diminuir o número de folículos disponíveis em cada ciclo. É por isso que a reserva ovárica está diretamente relacionada com a quantidade de óvulos.
Porque é que a quantidade de óvulos é importante nos tratamentos de fertilidade
A quantidade de óvulos é importante porque ajuda o médico a prever como os ovários poderão responder à medicação de estimulação durante o tratamento.
Na FIV, o objetivo é estimular o crescimento de mais do que um folículo para que seja possível recolher vários óvulos. Se tiver uma reserva ovárica mais elevada, poderá ser possível recolher mais óvulos num único ciclo. Se a sua reserva for mais baixa, poderão desenvolver-se e ser recolhidos menos óvulos.
Um maior número de óvulos pode aumentar as probabilidades de obter um embrião, mas a quantidade é apenas uma parte da equação. Ter muitos óvulos não garante o sucesso e ter menos não significa que a gravidez esteja fora de alcance.
Como explica a Dra. Joana,
Algumas pessoas conseguem recolher muitos óvulos sem obter um embrião saudável, enquanto outras recolhem apenas alguns e acabam por conseguir.
Como os médicos avaliam a quantidade de óvulos
Os médicos avaliam, normalmente, a quantidade de óvulos através de dois exames principais: o AMH e a contagem de folículos antrais.
AMH e fertilidade
AMH significa hormona antimülleriana. É produzida pelas células dos pequenos folículos em desenvolvimento nos ovários. Como esta hormona é produzida por esses folículos, a sua concentração no sangue pode fornecer uma indicação da reserva ovárica.
De forma geral:
● um valor de AMH mais elevado sugere uma maior reserva de óvulos
● um valor de AMH mais baixo sugere uma menor reserva de óvulos
Receber um resultado de AMH baixo pode ser assustador, sobretudo se parecer indicar que o tempo está a esgotar-se. No entanto, um valor baixo não significa que a gravidez seja impossível, nem indica automaticamente que a qualidade dos óvulos seja reduzida. Este resultado sugere, principalmente, que poderá produzir menos óvulos durante um ciclo de FIV.
A Dra. Joana explica que:
O AMH é útil para planear o tratamento, mas representa apenas uma parte da informação necessária. Por si só, não determina as probabilidades de sucesso.
Contagem de folículos antrais
A contagem de folículos antrais, frequentemente designada por AFC, é outra forma de estimar a reserva ovárica. É avaliada através de uma ecografia transvaginal, que permite observar os ovários com maior detalhe.
Esta ecografia é realizada, normalmente, no início do ciclo menstrual, quando os pequenos folículos presentes nos ovários são mais fáceis de visualizar. Durante o exame, o médico conta os pequenos folículos cheios de líquido visíveis em ambos os ovários. Estes são denominados folículos antrais. Cada um pode conter um óvulo imaturo, pelo que a sua contagem fornece uma estimativa do número de óvulos que poderão desenvolver-se nesse ciclo.
O AFC é útil porque oferece uma visão em tempo real da atividade dos ovários naquele mês. Pode ajudar o médico a compreender como os seus ovários poderão responder à medicação de estimulação, caso esteja a planear realizar uma FIV ou recorrer à criopreservação de óvulos.
Tal como o AMH, o AFC ajuda a avaliar a quantidade de óvulos e não a sua qualidade. O valor também pode variar ligeiramente entre ciclos, pelo que os médicos o analisam em conjunto com o nível de AMH, a idade e o historial clínico global.
O que significa qualidade dos óvulos
A qualidade dos óvulos está relacionada, sobretudo, com a presença do número correto de cromossomas. Os cromossomas transportam a informação genética.
Um óvulo saudável deve conter 23 cromossomas. Um espermatozoide saudável também. Quando ambos se unem, formam um embrião com um total de 46 cromossomas.
Se um óvulo tiver cromossomas a mais ou a menos, o embrião poderá não se desenvolver corretamente. Isto pode significar que:
● o embrião não implanta
● o embrião implanta, mas deixa de se desenvolver
● a gravidez termina em aborto espontâneo
● alguns destes embriões podem evoluir para uma gravidez de termo, existindo a possibilidade de a criança nascer com uma condição genética ou deficiência associada a alterações cromossómicas
Como a idade afeta a qualidade dos óvulos
À medida que os óvulos envelhecem, aumenta a probabilidade de surgirem alterações cromossómicas. É por isso que a qualidade dos óvulos tende a diminuir com o tempo e que os embriões provenientes de óvulos de mulheres mais velhas apresentam maior probabilidade de deixar de se desenvolver, resultar num aborto espontâneo ou originar um feto com alterações cromossómicas.
A idade é o fator que mais influencia a fertilidade, mas não afeta a quantidade e a qualidade dos óvulos exatamente da mesma forma. De forma geral, ambas atingem os seus níveis mais favoráveis entre os 20 e os primeiros anos dos 30, começando depois a diminuir de forma mais evidente a partir do final da terceira década de vida.
O que afeta a qualidade dos óvulos além da idade?
A idade é o fator mais importante, mas não é o único que pode influenciar a qualidade dos óvulos.
Um óvulo demora cerca de três meses a amadurecer antes da ovulação. Durante esse período, o ambiente em que se desenvolve é importante. O organismo não consegue produzir novos óvulos, mas pode influenciar as condições em que estes se desenvolvem.
Stress oxidativo
O stress oxidativo é um tipo de dano celular que se pode acumular ao longo do tempo. Fatores como fumar, uma alimentação pouco equilibrada, a inflamação, a poluição e o envelhecimento podem contribuir para este processo. Não é possível evitá-lo completamente, mas ter hábitos saudáveis, como não fumar, manter uma alimentação equilibrada e cuidar da saúde em geral, podem ajudar a reduzi-lo.
Diagrama que mostra como o stress oxidativo pode danificar uma célula ao longo do tempo, utilizado para explicar um dos fatores que pode afetar a qualidade dos óvulos.
Inflamação e condições médicas associadas
Algumas condições de saúde podem afetar o desenvolvimento dos óvulos. Entre elas encontram-se:
Tabagismo
O tabagismo é um dos fatores de estilo de vida mais claramente associados à redução da fertilidade.
A evidência científica sugere que fumar de forma ligeira ou moderada poderá ter um impacto menor nos marcadores habituais da reserva ovárica, sobretudo em mulheres mais jovens. No entanto, o consumo mais intenso ou prolongado está associado a uma menor reserva ovárica, a resultados menos favoráveis na FIV e a uma menopausa mais precoce.
Isto significa que fumar pode acelerar a perda natural de óvulos e afetar a sua qualidade, tornando mais difícil engravidar.
Exposição ambiental
Alguns estudos sugerem que a exposição frequente a determinados químicos presentes em alguns plásticos e produtos do dia a dia pode afetar a fertilidade. Como explica a Dra. Joana,
Ainda são necessários mais estudos nesta área, mas pode ser útil reduzir exposições desnecessárias sempre que possível.
Porque é que os números diminuem em cada etapa da FIV
Pode começar com um bom número de folículos na ecografia, mas nem todos contêm um óvulo maduro. Nem todos os óvulos maduros são fertilizados. E nem todos os óvulos fertilizados continuam a desenvolver-se até à fase de blastocisto no quinto dia.
Um ciclo pode evoluir da seguinte forma:
● 15 folículos observados na ecografia
● 12 óvulos recolhidos
● 10 óvulos maduros
● 7 óvulos fertilizados
● 5 embriões ainda em desenvolvimento ao dia 3
● 2 ou 3 blastocistos ao dia 5
Ver estes números diminuir não significa que algo tenha corrido mal. Trata-se de uma parte expectável da FIV, mesmo em ciclos que estão a evoluir favoravelmente.
Se existir uma redução mais acentuada numa fase posterior do desenvolvimento, especialmente entre a fertilização e a fase de blastocisto, isso pode indicar um problema relacionado com a qualidade dos óvulos, dos espermatozoides ou de ambos. Muitas vezes, os embriões deixam de se desenvolver porque apresentam alterações cromossómicas.
Esta pode ser uma realidade difícil de aceitar. No entanto, faz parte do processo natural de identificação dos embriões com maior potencial para resultar numa gravidez.
A seguir, apresenta-se um vídeo em time-lapse a mostrar um óvulo fertilizado a dividir-se e a desenvolver-se até se tornar um blastocisto no laboratório de FIV do Procriar.
É possível melhorar a qualidade dos óvulos?
Não é possível inverter o envelhecimento nem produzir novos óvulos, mas pode ser possível contribuir para a saúde dos óvulos que se encontram atualmente em desenvolvimento.
Como explica a Dra. Joana,
Se está a planear fazer FIV ou a tentar engravidar, pode ser útil encarar os três meses anteriores como um período de preparação do organismo.
Suplementos frequentemente utilizados nos cuidados de fertilidade
Dependendo da sua situação, o médico poderá recomendar suplementos como:
● CoQ10
● ómega-3
● vitamina D
● melatonina
Estes suplementos podem desempenhar diferentes funções no apoio à saúde reprodutiva. Antes de iniciar qualquer suplementação é importante aconselhar-se com o seu especialista em fertilidade, especialmente se já estiver a tomar medicação ou a realizar tratamentos.
Alimentação e equilíbrio dos níveis de açúcar no sangue
Não precisa de ter uma alimentação perfeita, mas uma dieta equilibrada pode contribuir para a saúde geral e criar condições mais favoráveis ao desenvolvimento dos óvulos.
Muitos médicos recomendam uma alimentação inspirada na dieta mediterrânica, que inclui:
● gorduras saudáveis, como azeite, frutos secos e abacate
● proteínas magras
● vegetais
● alimentos ricos em fibra
● menor consumo de alimentos ultraprocessados
O objetivo não é atingir a perfeição, mas sim proporcionar ao organismo um apoio consistente e sustentável.
É possível preservar a qualidade dos óvulos?
Se ainda não está preparada para ter um filho, mas está preocupada com a diminuição da qualidade dos óvulos ao longo do tempo, a criopreservação de óvulos poderá ser uma opção. Este procedimento permite preservar os óvulos na idade em que são congelados, razão pela qual fazê-lo mais cedo pode aumentar a probabilidade de ter óvulos com melhor potencial reprodutivo armazenados para o futuro.
Resumo rápido: qualidade vs. quantidade dos óvulos
Característica
Quantidade dos óvulos
Qualidade dos óvulos
O que significa
Quantos óvulos ainda existem nos ovários
Quão saudáveis são esses óvulos
O que reflete
Reserva ovárica
Se os óvulos têm o número correto de cromossomas
Como é avaliada
AMH e contagem de folículos antrais (AFC)
Desenvolvimento embrionário e, em alguns casos, PGT-A (diagnóstico genético pré-implantação para aneuploidias)
Porque é importante na FIV
Influencia o número de óvulos que podem ser recolhidos
Influencia a capacidade de um embrião continuar a desenvolver-se
Principal influência
Idade e genética
Idade, saúde celular e ambiente em que os óvulos se desenvolvem
Pode ser melhorada?
Não, diminui naturalmente ao longo do tempo
Não é possível alterar a idade, mas pode ser possível melhorar as condições que rodeiam o desenvolvimento dos óvulos
Objetivo
Ter um número suficiente de óvulos para aumentar as oportunidades
Obter um embrião saudável com potencial para resultar no nascimento de um bebé
Uma mensagem final de apoio
Os tratamentos de fertilidade podem ser emocionalmente exigentes, sobretudo quando parece que tudo se resume a números. Pode sentir esperança, desânimo, ansiedade ou até todas essas emoções na mesma semana. Isto faz parte do processo e é perfeitamente normal.
Compreender a diferença entre qualidade e quantidade dos óvulos pode ajudar a perceber melhor o que está a acontecer e quais poderão ser as opções disponíveis. No entanto, estes números representam apenas uma parte da história. O mais importante é compreender o que significam para si e para os seus planos e o apoio de que poderá precisar nos próximos passos.
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